

O Beira-Rio viveu, neste domingo, 7 de dezembro de 2025, uma das tardes mais intensas de sua história recente. Em campo, o Internacional venceu o Red Bull Bragantino por 3 a 1 e escapou do rebaixamento na última rodada do Brasileirão. À beira do campo, Abel Braga escreveu sua última linha como técnico colorado — e talvez a mais simbólica de todas.
Aos 73 anos, três anos após ter se aposentado, Abel voltou para comandar o clube em um dos cenários mais delicados das últimas décadas. Voltou sem contrato, sem salário, sem alarde — voltou por convicção, por sentimento e, principalmente, por dívida emocional. E deixou o gramado com o dever cumprido, sob aplausos, lágrimas e a sensação de ter encerrado o ciclo exatamente como gostaria: salvando o Inter.
O convite surgiu quando o Inter demitiu sua comissão técnica às vésperas do fim do campeonato. A pressão era enorme, o risco de queda real. Abel, que já havia comandado o clube em oito passagens, ouviu o chamado de D’Alessandro, foi procurado por Alessandro Barcellos e decidiu voltar.
“Se eu não acreditasse, não viria”, afirmou na apresentação. E repetiu que estava ali por gratidão — uma forma de corrigir o que, segundo ele, não havia conseguido fazer em outras oportunidades.
Nos primeiros dias, o ambiente tenso deu lugar a um vestiário mais leve. Abel atacou o problema pela raiz: confiança. Em um dos momentos mais marcantes da semana, decidiu cancelar o treino após a chegada de Santos, dizendo aos atletas: “Vão para casa, olhem para seus filhos. Relaxem. Eu acredito em vocês”.
A partir dali, a narrativa mudou.
O Inter entrou em campo sabendo que dependia de si, mas atento ao que acontecia em outros jogos. A torcida, nervosa, fez seu papel desde o início. E o time respondeu.
O primeiro gol saiu cedo no segundo tempo: Gabriel Mercado subiu mais que todos e, de cabeça, colocou o Colorado na frente. A partir daí, a confiança tomou conta do estádio. Alan Patrick ampliou em cobrança de pênalti e Johan Carbonero fez o terceiro, abrindo um 3 a 0 que misturava esperança e incredulidade entre os torcedores.
O Bragantino ainda descontou, mas nada mais tiraria do Inter o controle da partida — nem o medo, nem a tensão dos minutos finais. Quando o árbitro apitou, o estádio explodiu. Não era título, mas a sensação era como se fosse. A permanência tinha sabor de renascimento.
Abel Braga foi o último a deixar o gramado. Foi abraçado, chorou, agradeceu. Na coletiva, confirmou que não seguirá no clube em 2026.
“Foi incrível viver isso novamente, mas chega”, disse, emocionado. Comparou a permanência com suas maiores conquistas e deixou claro que este capítulo tinha um significado especial.
Jogadores, dirigentes e funcionários também se emocionaram. Alguns torcedores choravam nas arquibancadas — não só pelo alívio, mas pela despedida de alguém que representa parte fundamental da história do clube.
Nas redes sociais e em grupos de conselheiros, já se fala em homenagens permanentes: estátua, busto, nome em estrutura do clube. O presidente Alessandro Barcellos, em pronunciamento, afirmou que o Inter fará um gesto oficial, independentemente da classificação final.
O Inter fecha o Brasileirão com feridas profundas. A temporada expôs falhas de gestão, erros de planejamento e um desgaste emocional evidente no elenco. Mas termina vivo, com a chance de recomeçar e reorganizar o clube para 2026 — agora com a necessidade de transformar o susto em lição.
Para Abel, é a despedida definitiva. Não como o técnico campeão da Libertadores ou do Mundial. Não como o comandante que ficou a centímetros de um Brasileirão em 2020. Mas como o homem que voltou para impedir um desastre e fez exatamente isso.
Seu nome está gravado na história do Inter por grandes conquistas. Agora, também está por um salvamento que devolveu ao torcedor não apenas a Série A — mas a esperança.
E foi assim, entre lágrimas, aplausos e um Beira-Rio pulsando de alívio, que Abel Braga encerrou sua última tarde como treinador do Internacional.
Um final perfeito para uma história movida a emoção.
Obrigado, Abelão. Obrigado por mais um capítulo inesquecível.