

Existe algo diferente no clima de Carlos Barbosa nesta semana. Quem passa pelas ruas da cidade percebe rapidamente. Camisas laranja espalhadas pelas vitrines, bandeiras penduradas nas sacadas, ginásio recebendo os últimos ajustes e aquele sentimento difícil de explicar, mas muito fácil de sentir: a Serra Gaúcha voltou a respirar futsal como nos velhos tempos.
A Libertadores de Futsal começou oficialmente no domingo, dia 24, e segue até o próximo domingo, dia 31. Mas, para quem vive a modalidade diariamente, a competição começou muito antes. Começou na expectativa da torcida. Começou nos bastidores da organização. Começou na ansiedade de uma cidade inteira que carrega o futsal como parte da própria identidade.
E talvez não existisse lugar melhor para receber um torneio deste tamanho.
Carlos Barbosa não é apenas uma sede. É história viva dentro do futsal sul-americano. A ACBF, que completa 50 anos em 2026, transformou o nome da cidade em referência mundial da modalidade. O clube construiu uma trajetória vencedora, respeitada dentro e fora do Brasil, e chega nesta Libertadores tentando buscar um título que teria um peso emocional enorme: vencer em casa, diante da própria torcida, justamente no ano do cinquentenário.
Não é apenas mais uma competição para a equipe laranja.
É um reencontro entre passado, presente e futuro.
A competição reúne 12 equipes divididas em três grupos. Avançam para as quartas de final os dois primeiros colocados de cada chave, além dos dois melhores terceiros colocados. A partir daí, começa o mata-mata até a grande decisão marcada para o dia 31.
E o grupo da ACBF já nasce carregado de tensão. O time gaúcho terá pela frente o Peñarol, atual campeão sul-americano, além do Boca Juniors e do Fantasmas MM, da Bolívia. Um grupo pesado, daqueles que não permitem distração em nenhum momento.
A estreia diante do Peñarol, inclusive, carrega um peso simbólico enorme. O clube uruguaio chega defendendo o título conquistado na última temporada justamente sobre o Magnus. Do outro lado estará uma ACBF tentando reafirmar sua força continental dentro de casa.
O duelo também desperta lembranças. Em 2021, brasileiros e uruguaios se enfrentaram pela competição, e a equipe gaúcha venceu por 3 a 0. Agora, o cenário é diferente. O Peñarol chega mais forte, mais estruturado e tratado por muitos torcedores nas redes sociais como um dos poucos clubes capazes de quebrar a hegemonia brasileira no continente.
Porque essa é outra realidade impossível de ignorar: o futsal brasileiro segue dominando a América do Sul.

Nos últimos anos, Magnus e ACBF empilharam títulos e consolidaram o Brasil como principal potência da modalidade. O próprio Magnus chega novamente como um dos favoritos. Campeão da Supercopa do Brasil, o clube de Sorocaba desembarca em Carlos Barbosa com elenco forte, experiência internacional e o peso de quem já venceu o mundo.
A Libertadores, inclusive, vale muito mais do que uma taça continental.
Ela representa o passaporte para a Copa Intercontinental da Fifa, o Mundial de Clubes do futsal. E tanto Magnus quanto ACBF sabem exatamente o tamanho disso. O clube paulista conquistou o mundo em 2016, 2018 e 2019. Já a ACBF levantou a taça intercontinental em 2004 e 2012, consolidando uma geração histórica que ajudou a transformar o futsal brasileiro em referência global.
Por isso o ambiente em Carlos Barbosa parece diferente.
Existe uma atmosfera de nostalgia misturada com esperança.
A cidade lembra seus grandes momentos enquanto tenta construir um novo capítulo histórico.
E talvez esse seja o grande charme da Libertadores de Futsal. Ela mantém viva uma essência que muitos esportes perderam com o tempo. O torcedor continua perto do jogo. Continua ouvindo o banco de reservas. Continua sentindo a quadra tremer a cada gol. Continua vendo atletas acessíveis, identificados com o clube e emocionalmente conectados com quem está na arquibancada.
No futsal, tudo parece mais próximo.
Mais humano.
Mais verdadeiro.
E Carlos Barbosa entende isso como poucos lugares no mundo.
Durante toda a semana, a cidade deve receber torcedores de diferentes países, movimentando hotéis, restaurantes e o comércio local. Mais do que um torneio, a Libertadores acaba funcionando como uma vitrine da cultura esportiva da Serra Gaúcha.
Para quem acompanha a modalidade há anos, existe também um sentimento inevitável de orgulho.
Porque o futsal brasileiro pode até não ter o mesmo espaço midiático do futebol de campo, mas segue produzindo espetáculo, rivalidade, identidade e paixão em níveis impressionantes.
E quando a bola rola dentro do Centro Municipal de Eventos Sérgio Luiz Guerra, fica fácil entender por quê.
A Libertadores está em Carlos Barbosa.
E o coração do futsal sul-americano também.
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