

Tem uma frase que sempre aparece quando começa o mata-mata de uma Copa do Mundo: “agora começa outra competição”. E ontem ficou mais uma vez provado que isso não é apenas discurso.
Na fase de grupos ainda existe espaço para recuperação, para fazer contas e corrigir erros. No mata-mata, não existe amanhã para quem perde. É vencer ou voltar para casa.
E o 19º dia da Copa entregou exatamente aquilo que esperamos de um Mundial: sofrimento, emoção, lágrimas, heróis improváveis e decisões que ficaram para os últimos minutos.
Aliás, um detalhe chama muita atenção: dos quatro jogos já realizados nesta fase eliminatória, três foram definidos nos acréscimos. O futebol está mostrando que, enquanto existir tempo no relógio, nada está decidido.
E ontem foi mais uma prova disso.
Vou admitir: foi daqueles jogos em que o coração fica acelerado.
O Brasil entrou em campo contra o Japão sabendo que não teria facilidade. A equipe japonesa mostrou organização, disciplina e uma capacidade enorme de fechar espaços. Não era um adversário para se jogar contra de qualquer maneira.
Mas quando o Japão abriu o placar no primeiro tempo, a sensação foi de preocupação. A Seleção tinha mais a bola, tentava construir, mas encontrava uma defesa japonesa muito bem posicionada.
E aí começa aquela parte que só quem acompanha futebol entende.
Você olha para o relógio, vê o tempo passando, começa a imaginar todos os cenários e a ansiedade aumenta. A Copa do Mundo tem esse poder. Um jogo de 90 minutos parece durar uma eternidade quando o seu time precisa do resultado.
O Brasil voltou diferente no segundo tempo. Mais agressivo, mais presente no campo ofensivo e sabendo que precisava acelerar.
E quem apareceu? Ele.
Casemiro.
O jogador que todos pediam sua saída, no intervalo do jogo. O gol dele trouxe novamente a esperança e mudou completamente o clima do jogo.
A partir dali, foi pressão brasileira.
O Japão resistia, o relógio corria e a prorrogação parecia cada vez mais próxima.
Até que veio aquele momento que faz uma Copa do Mundo ser diferente.
Nos acréscimos (90 + 2), Bruno Guimarães encontrou Gabriel Martinelli, que apareceu no lugar certo para marcar o gol da virada.
Confesso que naquele momento foi mais alívio do que comemoração. Foi o tipo de gol que você não apenas comemora, você sente.
Porque Copa do Mundo é isso. É sofrer junto, reclamar, acreditar, duvidar e explodir quando a bola finalmente entra.
O Brasil não fez uma partida perfeita, mas escreveu um capítulo que muitos japoneses talvez nunca esqueçam: finalmente terminou o último episódio de Captain Tsubasa, só que desta vez não foi no desenho, foi na vida real. O roteiro que tantas vezes colocou o Japão vencendo nos gramados imaginários acabou com o Brasil virando a história dentro de campo, justamente no momento em que a esperança japonesa parecia maior.
E em um Mundial, muitas vezes isso vale tanto quanto jogar bem.
Tchau Tsubasa.
Se teve uma classificação que merece destaque, foi a do Paraguai.
E aqui eu lembro do amigo Rodrigo Rocha, que sempre demonstra uma admiração enorme pelo futebol paraguaio. Tenho certeza que ontem ele acompanhou aquele jogo com um sorriso no rosto e com aquela sensação de quem acredita em uma camisa que muitas vezes é esquecida pelos grandes centros.
A La Albirroja fez aquilo que historicamente sempre foi sua marca: competir.
Contra a Alemanha, uma das camisas mais pesadas do futebol mundial, o Paraguai não entrou para assistir. Entrou para jogar.
Enciso colocou os paraguaios na frente, mostrando que o time estava vivo e acreditava na classificação.
A Alemanha buscou o empate com Havertz, tentou pressionar, levou a decisão para a prorrogação, mas não conseguiu resolver.
E aí veio o momento que separa jogadores comuns de heróis.
Os pênaltis.
O goleiro Gill virou protagonista, defendeu, deu confiança aos companheiros e viu o Paraguai vencer por 4 a 3.
Uma classificação que representa muito para o futebol sul-americano.
Porque às vezes o futebol também precisa dessas histórias. Precisa lembrar que grandes seleções podem cair e que equipes organizadas, competitivas e com identidade podem sonhar.
Rodrigo, ontem foi um daqueles dias para guardar.
E para fechar a rodada, mais uma surpresa.
Holanda e Marrocos fizeram um jogo de muito equilíbrio. A seleção holandesa saiu na frente com Gakpo e parecia encaminhar a classificação.
Mas o Marrocos mostrou novamente uma característica que vem marcando sua evolução nos últimos anos: não desistir.
O empate veio nos minutos finais com Diop, levando a partida para a prorrogação.
Mais uma vez, os acréscimos aparecendo como personagem principal desta Copa.
Na disputa de pênaltis, o Marrocos foi mais eficiente e garantiu a vaga.
A seleção africana deixa claro que não é mais apenas uma surpresa. É uma equipe que sabe competir em alto nível e que entra em qualquer jogo acreditando na vitória.
Os primeiros jogos de mata-mata deixaram uma mensagem muito clara: camisa pesa, mas não decide sozinha.
Alemanha e Holanda ficaram pelo caminho. Brasil e Canadá precisaram buscar uma virada no limite. Paraguai e Marrocos provaram que organização, entrega e coragem podem derrubar qualquer favoritismo.
E talvez essa seja a beleza de uma Copa do Mundo.
É impossível controlar tudo.
Às vezes o craque resolve. Às vezes o goleiro vira herói. Às vezes um jogador que entra no segundo tempo muda a história.
Ontem foi o dia do sofrimento.
Mas também foi o dia daqueles momentos que fazem a gente lembrar por que ama futebol.
Porque no fim, enquanto o relógio não marca o último segundo, a história ainda pode mudar nos 90 + 1.
Robert Abel
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