A arbitragem brasileira busca um novo caminho na Espanha para recuperar a confiança do futebol
CBF inicia projeto inédito de capacitação em Madrid com apoio da FIFA e da Federação Espanhola para elevar o nível técnico, físico e emocional dos árbitros brasileiros
Publicada em 06/07/26 às 09:19h - 11 visualizações
por Rádio Studio Mix Esportes
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Sandro Meira Ricci, presidente da Comissão de Arbitragem da CBF, com os árbitros da categoria PRO CBF (Foto: Fábio Souza/ CBF)
A arbitragem brasileira vive um momento decisivo. Depois de temporadas marcadas por erros, críticas de clubes, reclamações de torcedores e constantes debates sobre o uso do VAR, a Confederação Brasileira de Futebol resolveu dar um passo diferente. Em vez de apenas reagir às polêmicas, a entidade decidiu investir na formação dos profissionais que estarão dentro de campo tomando as decisões mais importantes do futebol nacional.
Neste domingo (5), a categoria PRO da CBF iniciou uma imersão técnica inédita na sede da Real Federação Espanhola de Futebol (RFEF), em Madrid. Ao todo, 20 árbitros — sendo 17 profissionais e mais três convidados pela Comissão de Arbitragem — já se apresentaram e começam oficialmente os trabalhos físicos e teóricos nesta segunda-feira (6).
A programação seguirá até o dia 10 de julho e contará com acompanhamento de instrutores brasileiros, espanhóis e também da FIFA. Será a primeira vez que a CBF promove uma iniciativa deste porte no exterior, aproximando a arbitragem brasileira de um dos principais centros de excelência do futebol mundial. A iniciativa faz parte de um projeto de modernização da arbitragem, que também contempla profissionalização, atualização tecnológica e novos métodos de preparação.
Mais do que uma viagem internacional, o objetivo é promover uma verdadeira reciclagem na forma como os árbitros brasileiros se preparam para os desafios do futebol moderno.
Durante a semana, os profissionais participarão de avaliações físicas, treinamentos técnicos em campo e três sessões teóricas diárias. O trabalho, porém, vai muito além do condicionamento físico.
Uma das prioridades da programação será o desenvolvimento cognitivo dos árbitros. Em um futebol cada vez mais veloz, decidir corretamente em poucos segundos tornou-se tão importante quanto conhecer profundamente as regras do jogo. Por isso, os treinamentos também abordarão concentração, leitura das jogadas, controle emocional e capacidade de tomada de decisão sob pressão.
Na prática, a intenção é aproximar a arbitragem brasileira do modelo utilizado nas principais competições da Europa e da FIFA.
O diretor de Arbitragem da CBF, Netto Góes, destacou que esta imersão representa uma mudança de filosofia dentro da entidade.
Segundo ele, o projeto vai muito além de uma simples semana de treinamentos. A proposta é estabelecer uma nova visão para o desenvolvimento da arbitragem nacional, baseada no intercâmbio internacional, na busca permanente pela excelência e na preparação dos profissionais dentro dos padrões exigidos pelo futebol mundial.
Netto também ressaltou que, pela primeira vez, a CBF reúne em um mesmo ambiente instrutores da FIFA, da Federação Espanhola e da própria Comissão de Arbitragem para compartilhar experiências, metodologias e novas formas de treinamento.
Para o dirigente, investir na arbitragem significa investir diretamente na credibilidade das competições brasileiras.
A ideia é que árbitros estejam cada vez mais preparados técnica, física, tática e emocionalmente para enfrentar partidas de alto nível, reduzindo a margem de erro e aumentando a qualidade das decisões em campo.
Essa preparação ganha ainda mais importância porque o segundo semestre promete ser intenso no calendário nacional. Brasileirão, Copa do Brasil e competições internacionais entram em suas fases decisivas, justamente quando a pressão sobre a arbitragem costuma aumentar.
Além do trabalho de campo, a experiência permitirá contato com tecnologias e procedimentos utilizados pela UEFA e pela FIFA, incluindo protocolos de VAR, métodos de posicionamento, análise de desempenho e preparação para a implantação de recursos como o impedimento semiautomático, previsto para ser utilizado nas competições brasileiras após a Copa do Mundo.
Entre os participantes, alguns nomes chamam atenção.
Como Wilton Pereira Sampaio, Ramon Abatti Abel e Raphael Claus estão trabalhando na Copa do Mundo, a Comissão de Arbitragem optou por convidar outros três profissionais para completar o grupo de 20 integrantes.
Duas dessas vagas ficaram com Charly Deretti e Daiane Muniz. Embora façam parte da categoria PRO como árbitras de vídeo (VAR), ambas também atuam em partidas do futebol feminino e são consideradas candidatas a representar o Brasil na Copa do Mundo Feminina do próximo ano, que será disputada em solo brasileiro.
O terceiro convidado é Fernando Mendes, árbitro que vem sendo acompanhado de perto pela Comissão de Arbitragem em razão do desempenho apresentado nas avaliações técnicas e físicas.
A escolha do grupo demonstra que a CBF também pensa no futuro da arbitragem nacional, preparando profissionais que poderão ocupar espaço nas principais competições internacionais dos próximos anos.
Nas redes sociais, a iniciativa recebeu avaliações positivas de grande parte dos profissionais ligados à arbitragem, que enxergam o intercâmbio como uma oportunidade importante de atualização. Ao mesmo tempo, muitos torcedores mantiveram um tom de cautela. O sentimento predominante é de que a qualidade da arbitragem brasileira só será reconhecida quando o trabalho desenvolvido nos treinamentos começar a aparecer dentro das quatro linhas, reduzindo os erros que têm provocado tantas discussões nas últimas temporadas.
A verdade é que o futebol brasileiro cobra há anos uma arbitragem mais preparada, mais uniforme e mais segura em suas decisões.
A tecnologia evoluiu. O VAR passou a fazer parte da rotina. As regras são constantemente atualizadas. Mas, acima de tudo, continua sendo o ser humano quem toma a decisão final.
Por isso, talvez o maior ganho dessa imersão em Madrid não seja apenas o conhecimento técnico adquirido durante uma semana de treinamentos.
O verdadeiro desafio será transformar toda essa experiência em atuações mais consistentes nos gramados brasileiros.
Se isso acontecer, quem mais ganhará será o próprio futebol.
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