

Durante anos ouvimos treinadores reclamarem da falta de tempo para treinar. O calendário brasileiro sempre obrigou os clubes a viverem de um jogo para outro, corrigindo erros em vídeos, recuperando atletas no departamento médico e praticamente sem oportunidades para trabalhar conceitos dentro de campo.
Pois a Copa do Mundo de 2026 mudou esse cenário.
Pela primeira vez em muito tempo, boa parte dos clubes brasileiros ganhou algo raro no nosso futebol: tempo. Tempo para descansar. Tempo para recuperar jogadores. Tempo para treinar. Tempo para pensar.
Na prática, o Brasileirão entrou em uma espécie de segunda pré-temporada.
Cada clube encontrou seu próprio caminho para aproveitar essas semanas, mas praticamente todos seguem a mesma receita: aumentar a carga física, recuperar lesionados, realizar amistosos e testar novas ideias antes da bola voltar a rolar oficialmente.
O Flamengo decidiu atravessar o oceano. O elenco trabalha em Portugal, disputando amistosos e utilizando uma estrutura semelhante à encontrada pelos grandes clubes europeus. A ideia é elevar o nível competitivo antes da retomada das competições.
O Santos seguiu uma linha parecida. Também escolheu Portugal como sede da preparação, buscando enfrentar adversários mais fortes e dar ritmo aos jogadores em um ambiente diferente daquele encontrado no futebol brasileiro.
No Palmeiras, Abel Ferreira preferiu manter praticamente todo o trabalho dentro da Academia de Futebol. O foco está no ajuste tático, na recuperação física dos atletas mais desgastados e na observação de jovens que podem ganhar espaço durante o segundo semestre.
O Cruzeiro concentra sua preparação na Toca da Raposa, alternando treinamentos e amistosos. Um dos principais compromissos será justamente diante do Grêmio, em Brasília, naquele que promete ser um excelente teste para as duas equipes.
No Beira-Rio, o Internacional transformou a intertemporada em uma sequência de jogos-treino. Já venceu o Coritiba por 1 a 0, com gol de Gabriel Mercado, e ainda terá novos compromissos diante do Cerro Largo, São José, São Paulo e Caxias. Paulo Pezzolano busca dar ritmo ao elenco e encontrar a formação ideal para a sequência da temporada.
O Grêmio, sob o comando de Luís Castro, também utiliza a pausa para acelerar a construção de uma nova identidade. Depois dos amistosos contra Cascavel e Chapecoense, o Tricolor ainda enfrentará o Cruzeiro antes da volta do Brasileirão. Mais importante do que os resultados tem sido observar o crescimento coletivo da equipe e recuperar jogadores importantes, como Villasanti.
O São Paulo escolheu utilizar a pausa praticamente como uma sequência de jogos oficiais. A equipe enfrentou o Juventus, mediu forças com o Red Bull Bragantino e ainda negocia um amistoso contra o Internacional. O objetivo é simples: fazer o time voltar em ritmo de competição.
No Corinthians, o trabalho é um pouco diferente. Além da preparação física, o clube também tenta reorganizar seu elenco fora das quatro linhas. A diretoria busca equilíbrio financeiro enquanto a comissão técnica aproveita para recuperar atletas que terminaram o primeiro semestre no limite físico.
O Botafogo concentra suas atividades no CT Lonier. A prioridade é corrigir o sistema defensivo e integrar reforços que chegaram recentemente ao elenco.
O Fluminense utiliza a pausa para controlar a carga dos atletas mais experientes e dar oportunidades aos jovens das categorias de base, mantendo a filosofia de jogo construída nos últimos anos.
O Atlético Mineiro trabalha intensamente na Cidade do Galo. A recuperação dos lesionados e o ganho físico são tratados como fundamentais para um clube que pretende disputar títulos até o fim da temporada.
O Bahia permanece em Salvador realizando treinamentos técnicos e físicos, além de observar jovens promessas que podem ganhar minutos na equipe principal.
O Vasco aposta na reorganização tática durante a intertemporada. O objetivo é fazer a equipe voltar mais equilibrada para enfrentar um segundo semestre decisivo.
O Red Bull Bragantino preferiu aumentar o nível dos testes. Os amistosos diante de equipes da Série A servem justamente para manter a intensidade competitiva próxima daquela encontrada no Campeonato Brasileiro.
O Athletico Paranaense aproveita esse período para reorganizar seu projeto esportivo, recuperar atletas e buscar um retorno consistente às competições nacionais. O clube mantém a tradição de investir pesado em estrutura e formação de jogadores, utilizando a intertemporada para acelerar o desenvolvimento do elenco.
A Chapecoense também faz bom uso dessas semanas. Além da preparação física, a equipe realizou amistosos importantes, como a vitória por 2 a 1 sobre o Grêmio, em Sinop, resultado que reforça a confiança do grupo para a sequência da temporada.
Já o Remo vive um momento de expectativa. O clube paraense utiliza a pausa para fortalecer o trabalho da comissão técnica, integrar reforços e buscar maior regularidade, sonhando em fazer um segundo semestre que mantenha viva a esperança de alcançar objetivos ainda maiores.
No fim das contas, essa pausa representa muito mais do que um simples intervalo no calendário.
Ela pode mudar completamente o rumo da temporada.
Quem souber aproveitar essas semanas chegará mais forte quando a bola voltar a rolar. Quem desperdiçar esse tempo precioso provavelmente carregará problemas até dezembro.
Enquanto o mundo acompanha a reta final da Copa do Mundo, os clubes brasileiros trabalham longe dos holofotes.
Porque eles sabem que muitos campeonatos não são decididos apenas nos 90 minutos de domingo.
Alguns começam a ser vencidos justamente agora, nos campos de treinamento, nos amistosos discretos e nas horas silenciosas em que ninguém está olhando.
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